O Recôncavo Baiano

UM PANORAMA DO RECÔNCAVO BAIANO: SOCIEDADE, ECONOMIA E CULTURA

 

Ana Paula de Oliveira[1]

Claudia Lima de Albuquerque[2]

 

A região conhecida como Recôncavo Baiano, localizada no estado da Bahia, mais precisamente, ao entorno da Baia de Todos os Santos, é um dos primeiros pedaços de terra pisados pelos portugueses, logo que aportaram em solo americano. Deu-se aí, a origem de uma das mais ricas regiões do nosso país, tanto em relação a natureza, como culturalmente, e que comporta em seu território uma ampla mistura de povos, que aqui se uniram deixando suas marcas na cultura, na culinária e na arquitetura, contribuindo para a complexidade e singularidade cultural existente. O Narradores do Recôncavo relata aqui um pouco da história, economia e sociedade, dando ênfase à população local.

Apontar exatamente as cidades que compõem esse território, não é uma tarefa fácil e carece um debate que lançaremos no nosso espaço de discussão. Para tal é preciso levar em conta diferentes classificações de Recôncavo, seja ela o de Território de Identidades que considera 33 cidades[3], o do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE)[4] que identifica 20 municípios, que ocupam uma área de 5.250 ,51 km² do estado da Bahia. Porém, levando em consideração que muitas cidades da região estabelecem entre si, importantes relações, formando uma complexa rede urbana, consideraremos neste estudo, amparados pelo Geógrafo Milton Santos e principalmente pelo coordenador do Grupo Recôncavo Miguel Cerqueira Santos, inicialmente de forma delimitada alguns dos 89 municípios baianos (ver mapa abaixo) que estão localizados na área que circunda a Baia de Todos os Santos e que mantêm relações econômicas, políticas, culturais, sociais e identitárias, alavancadas principalmente pelos meios e veículos de comunicação e de tecnologia. Segundo CORRÊA (1997, p. 93)

[...] a rede urbana constitui-se no conjunto de centros urbanos funcionalmente articulados entre si. É portanto, um tipo particular de rede na qual os vértices ou nós são os diferentes núcleos de povoamento dotados de funções urbanas, e os caminhos ou ligações os diversos fluxos entre esses centros.

Fonte: Elaborado por SANTOS (1998), com base no SEI, 2006

Nesses municípios estão localizadas cidades de grande importância na região, como é o caso de Santo Antônio de Jesus, que se destaca economicamente devido ao forte comércio e a geração de serviços. Conta hoje com mais de duas mil empresas sem considerar o comércio informal. Cruz das Almas e Cachoeira também têm grande relevância, ambas passam por mudanças econômicas e de organização territorial devido as influências causadas pela instalação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

A história do estado da Bahia é antiga, Salvador, foi a primeira capital do Brasil e por muitos anos foi o centro administrativo de Portugal na Colônia. Essa importância dada a capital abrangia também a região em estudo, aqui se instituiu um expressivo comércio de açúcar, fumo e outros produtos oriundos de diversas localidades, que foram em direção a Portugal e outros países europeus. A população do Recôncavo em períodos coloniais sofreu muito com a ambição desenfreada dos portugueses, que tinham como único interesse a exploração das riquezas dessas terras. Observa-se muito bem no trecho seguinte de Miguel Santos e outros a intenção portuguesa, assim que chegou nessas terras.

Nos primeiros contatos que os portugueses mantiveram com o Recôncavo, perceberam a existência de uma diversidade de plantas, animais e uma sociedade nativa, denominada indígena. O colonizador europeu, quando partiu para África, América e Ásia sabia que, se necessário, destruiria todas as culturas encontradas, a fim de atingir o seu objetivo: exploração das terras “descobertas”. Daí a construção de ideologias para justificar as investidas políticas, socioeconômicas e culturais que lhe trariam grandes lucros a partir da comercialização de produtos que não se identificavam com a realidade dos nativos. (SANTOS et al, p. 14, 1996)

A proximidade do Recôncavo com a primeira capital do Brasil facilitava o embarque dos produtos e desembarque dos escravos, tornando Salvador o principal ponto de comunicação, fazendo com que suas adjacências também sofressem inúmeras mudanças. Essa região já demonstrava sua importância desde os primórdios da colonização, registros desse período ainda permanecem na paisagem de Salvador e de algumas cidades do Recôncavo, são os sobrados em estilo barroco, as igrejas e os pelourinhos.

A paisagem de algumas cidades do Recôncavo mudaram ao longo do tempo, hoje Cachoeira comporta uma intensa atividade turística, abriga um dos campus da UFRB, fazendo com que estudantes de variados locais do país, desloquem-se para esta pequena cidade para estudar, trazendo melhorias, mas também, aumentando, e muito, o custo de vida da população cachoeirana. A cidade, felizmente, ainda preserva em sua arquitetura um longo período da história brasileira, em parte graças aos investimentos do governo, que através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) faz reformas em vários prédios, que já estavam prestes a sucumbir, isto também ocorre em Salvador e São Felix.

O Recôncavo Baiano é composto por uma complexa paisagem, compreendendo desde formações litorâneas, rios, cachoeiras e muitas praias, mangues e em poucos locais, ainda restam resquícios da mata atlântica, como é o caso do município de Cruz das Almas, que detém parte deste recurso com a mata Cazuzinha. Grande parte da mata Atlântica passou por um intenso processo de destruição, com a chegada dos portugueses e, agravando-se a situação posteriormente com a utilização do solo na plantação de cana-de-açúcar e de outras intervenções resultantes da cultura. Desde então, sem uma política eficiente de recuperação, o que se vê, são apenas manchas, desta, que já foi um dos maiores biomas brasileiros.

Percebe-se que alguns rios encontram-se em estágio bem avançado de poluição, a exemplo do rio Paraguaçu, de grande valor histórico para a região. A devastação ambiental vai desde as derrubadas das matas, poluição e assoreamento dos rios, destruição dos mangues e matas ciliares, afetando diretamente a qualidade de vida das pessoas que habitam essa região. De acordo com Miguel Santos e outros pesquisadores, são poucas as iniciativas de algumas instituições de defesa ambiental, governamental ou não governamental, com vistas ao resgate da vitalidade ecológica nessa região. As atuações dos projetos SOS Mangue, em Maragogipe, Gamba, Gana e Verde Vale, com iniciativa do Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Campus V, de Santo Antonio de Jesus, visando a educação ambiental e o reflorestamento da região, constitui significativos exemplos.

O estado da Bahia, até o início do século XX, era grande produtor agrícola e o Recôncavo teve papel relevante nesse contexto. As plantações de cana-de-açúcar e fumo, este último, em grande parte, produzido em Cruz das Almas para fins de exportação durante muito tempo, empregava uma mão-de-obra majoritariamente feminina. A agricultura de mandioca, produzida em grande escala em Nazaré, Santo Antonio de Jesus e regiões próximas, constituiu a base alimentar de ricos e pobres durante muito tempo. Nos últimos anos as populações, principalmente, de classe média baixa do Recôncavo tiram seu sustento basicamente do comércio, da pesca, dos serviços públicos e da agricultura de subsistência. Embora abrigue em território rural muitos de seus habitantes, que cultivam a terra, tirando dela seu sustento e abastecendo as feiras regionais com o plantio de frutas, hortaliças, nas últimas décadas a agricultura de subsistência tem perdido espaço para o agronegócio, a criação de gado, que, atualmente é a atividade predominante no Recôncavo.

A importância do Recôncavo, como fornecedor de produtos primários, teve auge até o início de 1940, quando ocorreram intensas modificações nas estruturas socioeconômicas, políticas e culturais do espaço baiano. Neste período foram descobertas nesta região os primeiros poços de petróleo do território brasileiro. Surgido nas terras mais ricas, de solo massapé e de ocupação mais antiga, representou a etapa inicial de um novo processo e de um novo ciclo. O petróleo desempenhou uma função urbanizadora, pois com sua descoberta, cada vez mais precisava-se de mão-de-obra qualificada, para trabalhar nas empresas petrolíferas, onde a pouca escolaridade da maioria das pessoas dessa região não permitia que esta ocupasse bons cargos. Dados da época de 1950 revelam que numa população total de 5 anos ou mais de idade dos 786.207 habitantes, de ambos os sexos, mais da metade, ou seja, 418.326 não sabiam ler ou escrever. Assim, a mais nova atividade econômica da região, a perfuração de petróleo, trouxe de outros locais do país os operários para trabalharem na indústria petrolífera, ocupando seus principais postos.

Toda modernização causada com o aparecimento do petróleo, também, foi encarada como o momento civilizatório, ou seja “o Recôncavo civiliza-se, no sentido de que se moderniza; por outro lado, entretanto, pelo mesmo motivo, ele se descaracteriza”. (COSTA PINTO, 1958, p.176). A descaracterização era resultante da grande urbanização ocorrente no período, as pequenas cidades até então estavam crescendo rapidamente e sendo habitada cada vez mais por pessoas de outros lugares do Brasil. Merece importância também o deslocamento das bases econômicas e políticas de antigos municípios, a exemplo de Amargosa e Nazaré das Farinhas, provocadas pela implantação da BR 101 durante o processo de apoio estratégico à indústria automobilística e declínio das ferrovias, favorecendo os municípios localizados ao longo da BR a exemplo de Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas.

Quanto aos índices educacionais percebemos que na década de 50, metade da população baiana era analfabeta. Nos últimos anos, esse número mudou muito, de acordo com o censo demográfico do IBGE 2010, hoje a Bahia tem 11.766.373 habitantes, destes 1.811.790, ou seja, 15,4% são analfabetos. Das 6 universidades públicas da Bahia, sendo 4 estaduais e 2 federais, 4 estão situadas no Recôncavo e comportam milhares de estudantes, tanto dessa região como também de muitos outros locais do estado e do país. Para além das instituições públicas ainda conta com diversas escolas privadas e particulares e faculdades de ensino superior particulares. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) da maioria dos municípios do Recôncavo, no ano de 2007, girava em torno de 2,7.

O índice de analfabetismo principalmente nas cidades de pequeno porte no Recôncavo é alto, por isso torna-se importante salientar que ao estudar essa região deve-se levar em conta diferentes tipos de fontes. A oral seria de grande proveito, por ser uma metodologia de pesquisa que consiste em realizar entrevistas induzidas, estimuladas e gravadas com pessoas que podem testemunhar sobre acontecimentos, conjunturas, instituições, modo de vida ou outros aspectos da história contemporânea. É uma das fontes que provavelmente trará mais informações, pois a memória é a principal fonte desses depoimentos estabelecendo ligação direta entre o tempo e a história. Provavelmente uma boa parte da história local ainda pode ser enriquecida através das lembranças de seus moradores é por este motivo que resolvemos criar este site, pois numa paráfrase com o filme “Narradores de Javé” daremos voz às pessoas das comunidades para ajudar a contar a história desta Região. Não podemos esquecer também que a força da comunicação oral vem ao longo das décadas sendo midiatizada pelas diversas rádios da região, que aos poucos também vem sofrendo influências dos blogs e dos jornais virtuais. Poucas são as cidades que possuem jornais impressos, diários ou quinzenais, destes merecem destaque:

CIDADES

JORNAIS IMPRESSOS

Cruz das Almas

Jornal Gazeta do Recôncavo, O Planalto

Nazaré

Folha Regional

Cachoeira

O Guarani

Muritiba

Jornal do Recôncavo

Maragogipe

Diário Maragogipano

Santo Antonio de Jesus

Jornal Expressão News, Gazeta do Interior,  O interior,

 Fonte: Mídia Bahia, 2010

[1] Monitora do NAR

[2] Coordenadora do NAR

[3] Salvador, Lauro de Freitas, Lauro de Freitas (região metropolina), Simões Filho, Camaçari, Dias D’avila, Mata de São João, São Sebastião do Passé, Candeias , Madre de Deus, São Francisco do Conde, Santo Amaro, Cachoeira, São Felix, Saubara, Maragogipe, Salinas das Margaridas, Itaparica, Vera cruz, Nazaré, Muniz Fereira, Dom Macedo Costa, São Felipe, Muniz Fereira, Varzedo, Santo Antonio de Jesus, Castro Alves, Conceição do Almeida, Cruz das Almas, Muritiba, Governador Mangabeira, Cabaceiras do Paraguaçu; Fonte: Ministério do desenvolvimento Agrário - MDA, 2004; Comissão Estadual dos Territórios – CET, 2007; Secretaria do Planejamento- SEPLAN/BA, 2007; Mapa do Sistema de Transportes – Estado da Bahia . DERBA, 2007; Mapa de Divisão Político-Administrativa – Estado da Bahia. SEI, 2000.

[4]Cabaceiras do Paraguaçu, Castro Alves, Conceição do Almeida, Cruz das Almas, Dom Macedo Costa, Governador Mangabeira, Maragogipe, Muritiba, Nazaré, Santo Amaro, Santo Antonio de Jesus, São Felipe, São Felix, São Sebastião do Passé, Sapeaçú, Saubara, Varzedo, Cachoeira, Muniz Ferreira e São Francisco do Conde.

 

 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HENRIQUE, Wendel. Cidades médias e pequenas da rede urbana do Recôncavo da Bahia: uma análise sobre Cachoeira.

PINTO, Luiz de Aguiar Costa. Recôncavo: laboratório de uma experiência humana, Rio de Janeiro: Clasco, 1958.

SANTOS, Miguel C.; CONCEIÇÃO, Maria Gonçalves da; SANTOS, Daniel F. Recôncavo Baiano: realidade socioeconômica e cultural, 1998.

SANTOS, Milton. A rede urbana do Recôncavo. Salvador: laboratório de geomorfologia e Estudos Regionais – Universidade Federal da Bahia, Imprensa Oficial, 1959.

SANTOS, Jurandir dos. História oral, fontes documentais e narrativas como recursos metodológicos na educação.

SANTANA, Elissandro; e etal. A reestruturação urbana em Santo Antonio de Jesus e de Cruz das Almas, Bahia: a instalação dos campi da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e dos loteamentos fechados, como forma de exclusão sócio-espacial.

 

Sites

http://www.faeb.com.br/

http://www.inep.gov.br/





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